A ex-senadora e ex-candidata à Presidência da República (2006) Heloísa Helena, anuncia que, entre 05 e 06 de dezembro o P-SOL anunciará apoia à candidatura da senadora Marina Silva (PV) à eleições presidenciais de 2010.
É um movimento que diz muito.
Conversei com gente da base do partido nesta semana. Não há consenso quanto ao apoio e, mais que isso, há certa indisposição ao grupo majoritário no partido, liderado por Heloísa Helena e Luciana Genro. Para as bases do partido, o P-SOL deve lançar candidato próprio à Presidência no ano que vem. É a única forma, dizem, de marcar a posição partidária.
O P-SOL, há tempos, vem se isolando no cenário político brasileiro. Não é de hoje que, nas votações em comissões na Câmara e no Senado, o partido vota junto ao DEM e ao PSDB. Claro, é compreensível num primeiro momento. Tanto os socialistas quanto os demistas e tucanos fazem oposição ao governo Lula. Há diferença, no entanto, quanto ao discurso. Enquanto o P-SOL faz oposição à esquerda, DEM e PSDB se colocam à direita. Mas é aí que está. Essa diferença de discurso, que deve ser programática e ideológica, antes de mais nada, não é percebida pela sociedade em geral.
No jogo político, o discurso do P-SOL está travado no mesmo lugar desde 2005. O pessoal do partido vive repetindo a mesma lengua-lengua de que "é contra a corrupção", de que o "governo se alia à caciques políticos" e que o "PT se vendeu aos podres da política brasileira". Primeiro detalhe: esta é a mesma tecla batida pelo DEM e pelo PSDB. Segundo detalhe: DEM e PSDB estão perdendo capital político e eleitoral simplesmente porque essa história não tem dado pontos. Terceiro detalhe: criticar corrupção é fácil, não é não?
Aí que mora o perigo do ostracismo.
Caciques e membros graduados do DEM e do PSDB já sacaram que não adianta porcaria nenhuma ficar criticando corrupção. O governo FHC, mantido por uma aliança entre os dois, também fez pactos pela governabilidade e também passou por escândalos. E mais: tinha lá Geddel Vieira, José Sarney, Edison Lobão, Romero Jucá etc. O pessoal normalmente reconhecido ao clientelismo e à ineficiência técnica esteve presente nos dois governos. O PT batia lá trás. O PSDB bate hoje. Dá certo? O escândalo dos "fantasmas do Senado" deixou claro que não. Subia na tribuna Arthur Virgílio (PSDB) para reclamar "ética no trato da coisa pública" e logo era surpreendido por vazamento de que ele também usara serviços do Senado para privilégios privados (no caso, enquanto viajava à Paris com a esposa teve contas pessoais pagas pelo diretor-geral do Senado).
Criticar corrupção ou aparelhamento é babaquice. Você nunca vai ver alguém se eleger dizendo ser "favorável à corrupção". É óbvio que 10 em 10 pessoas são à favor da ética pública. É como aquelas pessoas que dizem, quando estão gripadas, que "odeiam ficar com febre". E por acaso alguém gosta de ter febre?
Pois então, viciar-se numa crítica moralista fica num jogo sem saída. O DEM, nada mais é que um nome bonitnho do antigo PFL. O PFL, por sua vez, era a "frente liberal" da Arena, o partido que dava sustentação à ditadura militar. Já o PSDB nasceu da costela do PMDB. Um grupo de peemedebistas, inconformados com o esquema de poder montado pelo ex-governador de São Paulo (1986-1990) Orestes Quércia, rompeu com o partido e criou o PSDB. Entre eles, estavam Mario Covas, FHC, Franco Montoro e José Serra. Hoje, o principal aliado do grupo de Serra à Presidência em 2010 é justamente Orestes Quércia.
Política é um jogo danado. Mas os leitores nunca encontrarão neste Blog algo do tipo "os políticos são todos iguais", ou aquele criticismo capenga e escapista de "vote nulo". Isso é coisa de gente que prefere ignorar as dificuldades do dia a dia. A política é um jogo danado sim. Mas, para mudá-la é preciso agir. Para agir é preciso pensar, estudar, refletir, conversar, cruzar informações, desafiar e ser desafiado. Isso não é fácil, é claro. Fácil é reclamar dos políticos e votar nulo nas eleições.
O P-SOL não ganha pontos políticos ao entrar nessa baboseira de crítica moralista. Neste campo, como vimos, ele disputará votos com o pessoal do DEM e do PSDB que, no entanto, tem muito mais capital (político e econômico) e, por isso, largam na frente. É preciso que o partido, e suas bases, se conscientizem que não basta cruzar os braços e dizer que discorda da corrupção. E quê mais? Ah, discorda da política econômica. Tudo bem, mas discorda do quê? E faria o quê para alterar?
Os partidos -- e aí incluo todos nesta conta -- precisam entender que na política do século XXI, para ser expurgar os caciques e profissionalizar a gestão do Estado é necessário estudar. Estudar muito. Entender Previdência, papel do Banco Central, política externa, crise americana, avanço chinês, déficit em conta corrente, hidrelétricas na Amazônia, repartição das receitas etc. É aí que o país é tocado. É aí que está o rumo do país. É aí, portanto, onde devem estar as divergências, as disputas, os consensos.
P-SOL se aliando ao PV para bancar Marina Silva é uma saída? Não sei. Mas alguém, dentro do P-SOL e entre os próprios verdes parou para discutir o que será defendido em 2010? O que será criticado e o que será apoiado? O que verdes e socialistas tem a ver? Aliança por aliança temos aos montes. Mas o país só vai ganhar alguma coisa com isso se houver discussão de lado a lado.