segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Propina e abuso: o caso Arruda

"Se um dia você resolver apresentar essas imagens da minha pessoa, você me avise com cinco dias de antecedência que é pra eu sumir ou dar um tiro na minha cabeça ou te matar."

Segundo Durval Barbosa, secretário de Relações Institucionais do governo do estado do Distrito Federal até sexta-feira passada, a frase acima foi dita pelo governador José Roberto Arruda (DEM) e se referia à divulgação das fitas gravadas por Barbosa que mostravam a propina cobrada e recebida por Arruda.

As fitas foram divulgadas na sexta-feira à noite. Desde então, o governo de DF vive um bombardeio.

As imagens são claras e evidentes: Arruda aparece recebendo sacos com notas de 100 reais enroladas em maços, somando, segundo Barbosa, R$ 50 mil. Não foram poucas vezes. Ao que parece, o pagamento ocorria mensalmente. Quem pagava? Empresas privadas e públicas, que, em troca, recebiam contratos do governo sem licitação.

Segundo consta, é um esquema que funciona desde o primeiro mandato do ex-governador Joaquim Roriz, quando Barbosa fazia parte do governo. Deixou o esquema Roriz prontinho, em 2006, para tocar a campanha de Arruda, que venceu as eleições. A partir de 2007, portanto, o governador mudou, alguns quadros mudaram, a população acreditou que valeu a pena, mas o esquema se manteve e, na frente dele, Barbosa, mais uma vez.

A Polícia Federal, por meio da Operação Caixa de Pandora, investiga as ramificações da "organização criminosa". Barbosa fez acordo de delação premiada com o Ministério Público e o Judiciário, livrando-se de inquéritos e tendo penas reduzidas em processos por corrupção no tempo em que servia ao governo de Roriz (2003-2006), antecessor de Arruda no comando do DF. Ao longo do fim de semana , foram cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em 24 endereços - 21 no DF, um em Goiânia e dois em Belo Horizonte. A PF mobilizou 150 agentes e recolheu R$ 700 mil, além de US$ 30 mil e 5 mil euros. Documentos, dezenas de computadores, pen drives e outras mídias eletrônicas com gravação de dados também foram apreendidos.

Ontem à noite, Arruda liberou primeira nota sobre o caso. Se disse "perplexo".

domingo, 29 de novembro de 2009

Domingo

A Terra era irreconhecível. Estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali -- ali podíamos ver a monstruosidade à solta. Não era uma coisa deste mundo, e os homens... Não, não eram desumanos. Bem, vocês sabem, era isso o pior de tudo -- essa desconfiança de que não fossem desumanos. Era uma ideia que nos ocorria aos poucos. Eles berravam, saltavam, rodopiavam e faziam caretas horríveis; mas o que mais impressionava era a simples ideia de que eram dotados de uma humanidade.

Joseph Conrad, escritor inglês, 1902.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A divisão das esquerdas entre os estudantes

Dentre a infinidade de boletins e jornais estudantis que circulam pela Universidade de São Paulo (USP), um deles, em especial, me chamou a atenção: "Suplemento do jornal Juventude Revolucionária", feito pela juventude do Partido da Causa Operária (PCO). Trata-se de uma folha, redigida frente e verso, com tiragem, segundo o boletim, de 10 mil exemplares.

O informativo trata da crise da USP e lança ideias. É algo importante, isso, de lançar ideias. Mas, afora qualquer coisa, destaco o seguinte parágrafo:
A atual direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE, controlado pelo PSTU) e do Conselho de Centros Acadêmicos (CCA, dirigido pelo P-SOL) atuam contra a organização dos estudantes. Impediram a realização do Congresso dos Estudantes da USP, que deveria ter sido feito neste segundo semestre e agora trabalham para impedir a convocação de uma assembleia geral (...)

Aqui, o PCO acusa o PSTU e o P-SOL de atuarem "contra a realização de uma assembleia geral". É um ponto. Aqui, portanto, deve ser discutido: 1) a crise da USP, 2) como resolver, 3) qual deve ser a participação dos estudantes, 4) se uma assembleia geral é o caminho. Pelo informativo, é possível supor que, neste caso, PSTU e P-SOL dividem a mesma opinião.

No entanto, conversando com qualquer pessoa ligada à juventude do PSTU e do P-SOL, podemos perceber que os dois não chegam a quase nenhum consenso. Ou seja, o PCO discorda do PSTU e do P-SOL, que discordam entre si.

Como os partidos de esquerda querem arregimentar alguém com essa zona toda? Sério, qual é a diferença tão crucial que separa PSTU, P-SOL, PCO? Não quero ser ingênuo. Eu sei que, a depender do tema, sempre teremos opiniões divergentes. Não estou defendendo a união forçada. Mas o bom senso. É simplesmente ridículo acreditar que, cada grupinho de 100 nêgo fazendo seu jornalzinho, discutindo uma vírgula n'O Capital, vão fazer alguma diferença entre todo o resto dos estudantes, que nada querem com nada. Para romper a alienação geral, o individualismo ou a pressão que o status quo exerce sobre o bem resolvido é preciso muito mais que isso.

Ou alguém dentro do PCO, do PSTU e do P-SOL acha que do jeito que está é possível, sozinho, mudar o regime do país?

Façam-me o favor.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

P-SOL e Marina Silva

A ex-senadora e ex-candidata à Presidência da República (2006) Heloísa Helena, anuncia que, entre 05 e 06 de dezembro o P-SOL anunciará apoia à candidatura da senadora Marina Silva (PV) à eleições presidenciais de 2010.

É um movimento que diz muito.

Conversei com gente da base do partido nesta semana. Não há consenso quanto ao apoio e, mais que isso, há certa indisposição ao grupo majoritário no partido, liderado por Heloísa Helena e Luciana Genro. Para as bases do partido, o P-SOL deve lançar candidato próprio à Presidência no ano que vem. É a única forma, dizem, de marcar a posição partidária.

O P-SOL, há tempos, vem se isolando no cenário político brasileiro. Não é de hoje que, nas votações em comissões na Câmara e no Senado, o partido vota junto ao DEM e ao PSDB. Claro, é compreensível num primeiro momento. Tanto os socialistas quanto os demistas e tucanos fazem oposição ao governo Lula. Há diferença, no entanto, quanto ao discurso. Enquanto o P-SOL faz oposição à esquerda, DEM e PSDB se colocam à direita. Mas é aí que está. Essa diferença de discurso, que deve ser programática e ideológica, antes de mais nada, não é percebida pela sociedade em geral.

No jogo político, o discurso do P-SOL está travado no mesmo lugar desde 2005. O pessoal do partido vive repetindo a mesma lengua-lengua de que "é contra a corrupção", de que o "governo se alia à caciques políticos" e que o "PT se vendeu aos podres da política brasileira". Primeiro detalhe: esta é a mesma tecla batida pelo DEM e pelo PSDB. Segundo detalhe: DEM e PSDB estão perdendo capital político e eleitoral simplesmente porque essa história não tem dado pontos. Terceiro detalhe: criticar corrupção é fácil, não é não?

Aí que mora o perigo do ostracismo.

Caciques e membros graduados do DEM e do PSDB já sacaram que não adianta porcaria nenhuma ficar criticando corrupção. O governo FHC, mantido por uma aliança entre os dois, também fez pactos pela governabilidade e também passou por escândalos. E mais: tinha lá Geddel Vieira, José Sarney, Edison Lobão, Romero Jucá etc. O pessoal normalmente reconhecido ao clientelismo e à ineficiência técnica esteve presente nos dois governos. O PT batia lá trás. O PSDB bate hoje. Dá certo? O escândalo dos "fantasmas do Senado" deixou claro que não. Subia na tribuna Arthur Virgílio (PSDB) para reclamar "ética no trato da coisa pública" e logo era surpreendido por vazamento de que ele também usara serviços do Senado para privilégios privados (no caso, enquanto viajava à Paris com a esposa teve contas pessoais pagas pelo diretor-geral do Senado).

Criticar corrupção ou aparelhamento é babaquice. Você nunca vai ver alguém se eleger dizendo ser "favorável à corrupção". É óbvio que 10 em 10 pessoas são à favor da ética pública. É como aquelas pessoas que dizem, quando estão gripadas, que "odeiam ficar com febre". E por acaso alguém gosta de ter febre?

Pois então, viciar-se numa crítica moralista fica num jogo sem saída. O DEM, nada mais é que um nome bonitnho do antigo PFL. O PFL, por sua vez, era a "frente liberal" da Arena, o partido que dava sustentação à ditadura militar. Já o PSDB nasceu da costela do PMDB. Um grupo de peemedebistas, inconformados com o esquema de poder montado pelo ex-governador de São Paulo (1986-1990) Orestes Quércia, rompeu com o partido e criou o PSDB. Entre eles, estavam Mario Covas, FHC, Franco Montoro e José Serra. Hoje, o principal aliado do grupo de Serra à Presidência em 2010 é justamente Orestes Quércia.

Política é um jogo danado. Mas os leitores nunca encontrarão neste Blog algo do tipo "os políticos são todos iguais", ou aquele criticismo capenga e escapista de "vote nulo". Isso é coisa de gente que prefere ignorar as dificuldades do dia a dia. A política é um jogo danado sim. Mas, para mudá-la é preciso agir. Para agir é preciso pensar, estudar, refletir, conversar, cruzar informações, desafiar e ser desafiado. Isso não é fácil, é claro. Fácil é reclamar dos políticos e votar nulo nas eleições.

O P-SOL não ganha pontos políticos ao entrar nessa baboseira de crítica moralista. Neste campo, como vimos, ele disputará votos com o pessoal do DEM e do PSDB que, no entanto, tem muito mais capital (político e econômico) e, por isso, largam na frente. É preciso que o partido, e suas bases, se conscientizem que não basta cruzar os braços e dizer que discorda da corrupção. E quê mais? Ah, discorda da política econômica. Tudo bem, mas discorda do quê? E faria o quê para alterar?

Os partidos -- e aí incluo todos nesta conta -- precisam entender que na política do século XXI, para ser expurgar os caciques e profissionalizar a gestão do Estado é necessário estudar. Estudar muito. Entender Previdência, papel do Banco Central, política externa, crise americana, avanço chinês, déficit em conta corrente, hidrelétricas na Amazônia, repartição das receitas etc. É aí que o país é tocado. É aí que está o rumo do país. É aí, portanto, onde devem estar as divergências, as disputas, os consensos.

P-SOL se aliando ao PV para bancar Marina Silva é uma saída? Não sei. Mas alguém, dentro do P-SOL e entre os próprios verdes parou para discutir o que será defendido em 2010? O que será criticado e o que será apoiado? O que verdes e socialistas tem a ver? Aliança por aliança temos aos montes. Mas o país só vai ganhar alguma coisa com isso se houver discussão de lado a lado.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Versão brasileira - prévia

Ainda vou escrever um texto decente sobre a banca e sobre o livro Versão Brasileira. Quero apenas deixar registrado aqui o agradecimento a todos que participaram e torceram pelo sucesso do trabalho.

A sala estava cheia, linda. Obrigado aos amigos e amigas que se dispuseram a participar de uma banca numa segunda-feira chuvosa, às 21 horas, em São Paulo. Espero que tenha valido à pena. Agradeço também à todos que, mesmo não comparecendo, torceram junto.

O livro foi aprovado com nota 10 com louvor pelos dois examinadores, Antônio Pedro Tota e José Salvador Faro, que ainda o indicaram para publicação.

Agora começa nova batalha.

Mas as forças deste blogueiro, sempre muito positivo e alegre, foram recarregadas.

Obrigado à todos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Convite - Versão Brasileira, hoje

Ocorre hoje, na Faculdade de Comunicação e Filosofia (Comfil) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a banca que examina o livro Versão Brasileira.

Os leitores do Blog estão mais do que convidados a participar.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui. E para ler sobre as motivações do blogueiro, clique aqui.

Na banca, estarão presentes, além dos autores do livro (é claro), o orientador Hamilton Octávio de Souza, chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP, e os examinadores José Salvador Faro e Antônio Pedro Tota.

Serviço:

Quando: hoje, 23 de novembro.
Horário: às 21 horas.
Onde: Sala 35 CA, no prédio da Comfil, na PUC-SP.
Local: Rua Monte Alegre, 971, entre as ruas Bartira e João Ramalho. Perdizes, SP.

domingo, 22 de novembro de 2009

Domingo

Agora eu estou cego, mas quiçá estar cego não seja uma tristeza. Embora me baste pensar nos meus livros, tão próximos e tão longe de mim para, bom, para querer ver. E chego a pensar que se eu recuperasse a visão, eu não sairia desta casa, e ficaria lendo todos os livros que tenho aqui, e que mal conheço, embora os conheça pela memória, que modifica as coisas.

Jorge Luís Borges, escritor argentino, falecido em 1986.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Fim de expediente

Para este Dia da Consciência Negra, curto e grosso, vamos fechar o expediente com o que há de melhor na música brasileira: Itamar Assumpção desfilando "Não posso ficar", do mestre Tim Maia.

Saudosismo puro. Uma alegria só lembrar Itamar e cantar Tim.


video

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sindicalismo à la Telemarketing

Na edição mais recente de CartaCapital, Gilberto Nascimento levanta uma questão importante: os novos militantes, os novos sindicatos, o novo operariado: os operadores de telemarketing. Eles ainda estão longe -- muito longe -- de ganhar a musculatura que os sindicatos de metalúrgicos tinham no fim dos anos 70. Mas, de qualquer forma, os tempos são outros.

Conhecidos pelo uso do gerúndio e pelo bordão "vamos estar solucionando", os operadores de telemarketing são considerados os metalúrgicos dos dias atuais. A função surgiu como fruto das novas relações de trabalho e do avanço tecnológico, mas carrega problemas parecidos com os das antigas linhas de produção industrial. Os operadores de telemarketing somam 1,075 milhão de profissionais hoje no país. A maioria é jovem no primeiro emprego, com idade entre 18 e 29 anos. É a categoria que mais cresceu no Brasil: 10% ao ano em uma década. Setenta por cento são mulheres.


Há diferença não apenas no processo histórico, nacional e internacional, mas também de atuação. A forma de se organizar e o nível cultural são completamente distintos entre metalúrgicos e operadores de telemarketing. Veja o que relata Nascimento:

Os jovens líderes sindicais da área de telemarketing, alguns com pouco mais de 20 anos, se organizam de forma diferenciada. Para atingir o público, realizam assembleias durante festas fechadas em casas noturnas, com DJs e outros atrativos. Num determinado momento, a música para, começam os discursos e as informações importantes são transmitidas. A tecnologia é utilizada na comunicação com a base.


Já tinha levantado essa bola aqui no Blog, tempos atrás (leia aqui). As coisas estão mudando e novas organizações sindicais, uma nova militância está sendo formada, num processo ainda difícil de problematizar.

Podem anotar, para virem cobrar aqui do Blog no futuro: este será um dos temas quentes dos próximos anos. Começará, timidamente, com aquelas matérias de cadernos aos domingos. Depois, passará ao noticiário e, dali, para a tevê. Fechará o círculo na política partidária. Onde, aliás, já há movimentação. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing de São Paulo (Sintratel), Marco Aurélio de Oliveira, é filiado ao PC do B.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Moeda caindo, caindo...

Quando o governo baixou a cobrança de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), instaurou-se um chororô de que aquilo "afastaria os investimentos em Bolsa", "afugentaria o capital externo das contas brasileiras" e tudo o mais.

Como se sabe, um blablabla que não chegou a lugar nenhum.

Também não chegou em lugar algum a tentativa do governo de, por meio do IOF, segurar a valorização da taxa de câmbio. Antes do IOF, o dólar já estava testando a barreira dos R$ 1,70. O IOF fez subir um pouco, para R$ 1,74, e ficou por ali por 30 dias. Não mais que isso. Hoje, no mercado de câmbio, a cotação já chegou a bater nos R$ 1,69 antes de voltar a R$ 1,70.

Quer dizer, o IOF não serviu ao governo e nem ao mercado, que criou um fuzuê com pouco -- se algum -- fundamento.

Atualização de 18/11 às 18h46min

A cotação voltava a testar a barreira dos R$ 1,70 e, tal como no mês passado, o governo anuncia nova taxação. Agora, Guido Mantega, ministro da Fazenda, acaba de anunciar, em Brasília, a taxação de 1,5% sobre as ADRs, as ações de empresas brasileiras listadas na Bolsa de Nova York.

Com o IOF, alguns investidores e empresas passaram a aproveitar as ADR para driblarem o imposto nacional. Agora, terão de ser mais criativos.

E dá-lhe chororô. Os próximos dias serão quentes no mercado, na academia e na mídia.